terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Cosme de Farias, o rábula dos capoeiras


Josivaldo Pires de Oliveira
Adjunto de História – UNEB/Campus XIII
Pós-Graduação em História Regional e Local – UNEB/Campus V
Malungo Centro de Capoeira Angola

Em uma das várias seções do Tribunal do Grande Júri na Cidade do Salvador no ano de 1895, um juiz de nome Vicente Tourinho perguntou à platéia quem poderia defender um negro acusado de ter roubado a importância de 500 réis e fora abandonado pelo seu advogado à beira do Júri. Quando um rapazola mulato com cara de menino se pronunciou aceitando o desafio, sem ao menos conhecer as peças do processo e o acusado. Depois de uma rápida leitura nos autos e uma estratégica intervenção do defensor, o réu foi absolvido. O argumento da defesa foi nada mais que: “a falta de oportunidade na vida o conduzira ao crime”.
Cosme de Farias tinha apenas o curso primário, entretanto, atuou durante sua trajetória de vida em mais de 30 mil processos judiciais, foi apontado como o campeão de habeas corpus da Bahia e, talvez, de todo o Brasil.
O referido rapazola mulato com cara de menino era Cosme de Farias, o último rábula da Bahia e um dos advogados que mais ganhou causas consideradas perdidas.
Nasceu no dia 02 de abril de 1875, em São Tomé de Paripe, subúrbio de Salvador, então Província da Bahia, filho de Paulino Manuel e Júlia Cândida de Farias, cursou apenas o primário. Foi vereador, deputado estadual, ativista social tendo, como rábula, defendido mais de 30 mil ladrões, prostitutas, bicheiros, homicidas, homens e mulheres caluniados, pobres que mofariam na cadeia sem dar a sua versão dos fatos. Cosme de Farias faleceu em Salvador, em 14 de março de 1972 e foi sepultado com grande prestígio popular.
Muitos criminosos ou ludibriados réus defendidos por Cosme de Farias eram capoeiras, agentes culturais identificados em sua vida social como valentes, brigões, desordeiros e capadócios além de capangas que prestavam serviços a figuras políticas da capital baiana. Os casos que se seguem ilustram a prática do rábula na defesa de capoeiras entre os quais nomes bastante conhecidos na época pelas forças policiais, como foi o caso de Pedro Porreta e Chico Três Pedaços, famosos pelas suas práticas de desordem nas ruas da capital baiana, na primeira República.
Uma das peculiaridades de Cosme de Farias era o “componente emocional”, ou seja, valorizava mais o psicológico dos acusadores, dos jurados e da audiência, do que o aparato jurídico, a lógica forense e os preceitos legais. Um outro elemento muito recorrente em suas elaborações era a negação da razão do indivíduo no momento em que cometeu o crime. Este foi, inclusive, o argumento que utilizou em defesa do capoeira Pedro Porreta, bastante conhecido pelos prepostos da polícia.
No dia 6 de maio de 1931, Pedro Porreta se desentendeu com sua companheira Josepha Alves de Araújo à porta de uma venda, situada nas proximidades da Rua da Assembléia, no distrito da Sé. Porreta agrediu a sua companheira que tombando ao chão teve o rosto seriamente machucado. Efetuada a prisão do agressor, o mesmo foi denunciado pelo promotor público da Primeira Circunscrição Criminal, incurso no art. 303 do Código Penal, em vigência, por crime de lesões corporais.
Nos autos de perguntas, anexos ao processo crime que acusava Pedro Porreta, Josepha Alves de Araújo, afirmou que o seu “offensor é conhecido como desordeiro e tem sido preso diversas vezes pela polícia”.  De fato, os jornais que circulavam na cidade de Salvador nas primeiras décadas do século XX, registraram uma série de conflitos envolvendo Pedro Porreta inclusive contra policiais e prostitutas, portanto não teria o valente capoeira um grande currículo para argumentar em sua defesa. Mas não foi preciso, alguém faria isto por ele. 
O termo de resposta do júri que o absolveu utilizou a seguinte argumentação: “o réu no acto de commetter o crime achava-se em estado de completa perturbação de sentido e de inteligência”. Curiosamente, em nenhum momento da acusação e dos autos de perguntas do processo ele foi identificado como sendo portador de algum tipo de doença ou de qualquer limitação que caracterizasse o argumento do júri. Era obra do rábula dos capoeiras.
Cosme de Farias entrou em ação para livrar Pedro Porreta da acusação de crime de lesão corporal. A negação da legitimidade do crime pela acusação de insanidade mental do réu era uma marca de Cosme de Farias e funcionou muito bem no caso de Pedro Porreta. Quanto a Josepha Alves de Araújo, companheira e vítima do notório capadócio, foi encaminhada para a enfermaria da Assistência Pública, depois de ter sido esmurrada pelo valente capoeira que foi autuado em flagrante delito.
 O argumento de Cosme de Farias, veiculado em um documento intitulado “pelo denunciado” e anexa aos autos do processo, foi a não caracterização da figura jurídica do art. 303 do Código Penal, ou seja, o acusado não tinha a intenção de ferir a vítima. Entretanto, em documento endereçado ao juiz da referida Circunscrição Criminal, o rábula utilizou um recurso eficiente, enalteceu exacerbadamente a pessoa do magistrado insinuando ser ela um símbolo da justiça baiana. Foi o bastante. Pedro Celestino dos Santos, vulgo Pedro Porreta, acusado do crime de lesões corporais foi absolvido pela justiça baiana.
O termo de resposta do júri que absolveu Pedro Porreta dizia que “o réu no acto de commetter o crime achava-se em estado de completa perturbação de sentido e de inteligência”. Como já observado, essa era uma característica peculiar de Cosme de Farias, ele influenciou o júri a tal decisão. A soma de valentes capoeiras defendidos pelo Major ainda iria acrescentar os casos envolvendo o capadócio que respondia pela alcunha de Chico Três Pedaços.
Na noite de 23 de julho de 1927, no centro antigo da cidade do Salvador (atual Centro Histórico do Pelourinho), João Francisco Pires, conhecido por Três Pedaços, foi acusado de ferir com uma cabeçada a José Raymundo dos Santos. Segundo a vítima, Três Pedaços teria entrado no estabelecimento comercial de nome “Café Para Todos”, situado naquela localidade, e pedido um pouco de café, o que lhe foi servido. Logo em seguida, o referido capoeira teria proferido obscenidades e ao ser advertido, agrediu o espanhol José Raymundo lesionando seus lábios com uma violenta cabeçada, golpe típico da prática da capoeira. Naquele instante teria comparecido um praça de polícia e conduzido o agressor à Delegacia da Segunda Circunscrição.
Por mais que o capoeira Três Pedaços tenha negado as ofensas físicas a José Raymundo dos Santos, nos autos foram ouvidas três testemunhas que a ele deram a autoria. Entretanto, o exame de corpo de delito realizado na vítima negou todas as acusações feitas ao réu, livrando-o de ser incurso no art. 303 do Código Penal, que punia o crime de lesões corporais. A intervenção de Cosme de Farias garantiu a liberdade de João Francisco Pires, vulgo Três Pedaços. Dentre os vários recursos de retórica utilizados pelo rábula, como já foi referido, eis aqui um exemplo, no qual o defensor sensibilizou o representante da Justiça Pública, lembrando que o réu já havia sido absolvido e que continuando preso sofria constrangimento por parte da lei e da justiça. Argumentava que Três Pedaços já não representava perigo algum, pois se tratava de um “desvalido e confiado na rectidão da justiça” daquela autoridade.
Existem no Arquivo Público do Estado da Bahia 4 processos movidos contra Chico Três Pedaços, sendo um por furto e os três restantes por lesões. Além deste o Major Cosme de Farias é citado em um outro movido contra Três Pedaços no ano de 1923. O capoeira foi denunciado pelo promotor público da 2ª Circunscrição Criminal por ter ferido a navalha o praça de polícia Ludgero Alves de Sant’ Anna.
Pedro Porreta e Chico Três Pedaços, obviamente, não foram os únicos agentes culturais da capoeiragem baiana a serem defendidos pelo rábula Cosme de Farias. Somam-se a estes: Bastião, Samuel da Calçada, Nozinho da Cocheira, Pedro Porreta, Duquinha, Scalvino, dentre outros revelados pela memória e historiografia da capoeira na Bahia.
Muitos desses capoeiras eram apontados como capangas de líderes políticos partidários de Cosme de Farias, entre eles os ex-governadores Joaquim José de Seabra (1855-1942) e Antônio Moniz (1881-1940), assim como o ex-secretário de Segurança Pública José Álvaro Cova, o qual já fora apontado como “padrinho dos capoeiras”, pelos escritos memorialistas do mestre Noronha (1909-1979).
Teriam essas filiações políticas alguma relação com a participação de Cosme de Farias nos processos movidos contra os referidos capoeiras?   O velho rábula teve uma história de ativismo social que não se deve negar, o que justificaria o seu empenho em livrar os capoeiras das malhas da justiça, mesmo aqueles apontados como capangas do grupo liderado por J. J. Seabra. O fato, é que os bastidores da história revelam Cosme de Farias como o rábula dos capoeiras.

 Saiba mais:
ABIB, Pedro (org.). Mestres e Capoeiras da Bahia. Salvador: EDUFBA, 2009.
CELESTINO, Mônica. “Cosme de Farias: advogado dos pobres”. In: Memórias da Bahia.  Salvador: Empresa Baiana de Jornalismo S. A., 2002, v. 1.
OLIVEIRA, Josivaldo Pires. No tempo dos valentes: os capoeiras na cidade da Bahia. Salvador: Quarteto, 2005.
PIRES, Liberac Cardoso Simões. A capoeira na Bahia de Todos os Santos. Tocantins: GRAFSET, 2004.

 BOX 1

O Rábula
Também conhecido por Aprovisionado, rábula era, no Brasil, desde o período colonial, o advogado que não possuia bacharelado em Direito.  Os interessados solicitavam a autorização para advogar do órgão competente do Poder Judiciário ou da entidade representante de classe. Expedia-se, a pedido do pretendente, uma Provisão, que tornava habilitado o rábula a exercer a prática de advogado. Com a criação da Ordem dos Advogados do Brasil-OAB, no início dos anos 1930, o sistema de rábula foi legitimado por este ógão de classe sendo extinto apenas nas décasas de 1960-70, quando a advocacia passou a ser prerrogativa exclusiva dos bacharéis em Direito.

 BOX 2

Os Capoeiras
Denominação utilizada, desde o século XIX,  para identificar o praticante da arte-luta-dança de matrizes africanas conhecida no Brasil por Capoeira. Durante o século XIX e primeira metade do século XX, estes indivíduos eram estigmatizados como marginais, arruaceiros e perigosos capadócios das ruas de grandes centros urbanos brasileiros. A prática dos capoeiras denominada capoeiragem, foi criminalizada no Código Penal de 1890, só deixando de ser considerada contravenção com a reforma penal dos anos 1930, ganhando estatos de esporte nacional. Em 2008, a capoeira foi tombada como patrimônio cultural brasileiro e seus praticantes atendem pela denominação de capoeiristas. 

BOX 3

A Bahia e os Capoeiras
A Bahia foi construída historicamente como um símbolo da capoeira no Brasil e no mundo, processo este que pode ser datado a partir dos anos 1930 e 1940. Entretanto, pouco se conhece dos bastidores das relações sociais e de poder que os famosos capoeiras baianos mantinham com figurões da política local anterior a este período, definido como o tempo dos valentes das ruas.

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Experiências do Mundo Atlântico: escravidão e liberdade. Séculos XVIII-XX

Prezados(as),
Nos próximos dias 25 e 26/11/2015, acontecerá na UFBA o Evento - Experiências do Mundo Atlântico: escravidão e liberdade. Séculos XVIII-XX, organizado pela Linha de Pesquisa Estudos sobre trajetórias de populações afro-brasileiras (PPGHIS/UNEB), em parceria com a Linha de Pesquisa Escravidão e invenção da liberdade (UFBA).

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Professor do curso de História da UNEB/XIII participa de obra coletiva sobre Capoeira do Museu Afro-Brasileiro da UFBA.

 Mestre Pastinha, Bimba e Cobrinha Verde, tornaram-se biografias de uma publicação extremamente peculiar que será lançada nesta quinta-feira (15), em Salvador. Trata-se do Livro-Catálogo intitulado: UMA COLEÇÃO BIOGRÁFICA: OS MESTRES BIMBA, PASTINHA E COBRINHA VERDE NO MUSEU AFRO-BRASILEIRO DA UFBA. A obra foi organizada pela professora Dra. Joseania Miranda Freitas, do Departamento de Museologia da UFBA e contou com o selo da EDUFBA. Participam da obra poetas, dramaturgos, capoeiristas e estudiosos das diferentes áreas das humanidades, vinculados à várias entidades culturais e universidades baianas.
Professor do Colegiado de História da UNEB/Campus XIII e do PPGHIS/UNEB- Campus V,  Josivaldo Pires de Oliveira assina na obra o capítulo intitulado: “Testemunhos iconográficos: a história por trás das imagens da coleção Capoeira do MAFRO”.  Doutor em Estudos Étnicos e Africanos, Josivaldo é autor de outras produções sobre capoeira no Brasil, a exemplo dos livros: “No tempo dos valentes: os capoeiras na cidade da Bahia (Quarteto, 2005)” e  “Capoeira, identidade e gênero: ensaios de história social sobre capoeira no Brasil (EDUFBA, 2009)”. O lançamento ocorrerá amanhã (15), às 17:00h, no Salão Nobre da Reitoria da UFBA e exemplares estarão à venda no local.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Capoeira se despede do Mestre Gildo Alfinete!

Segue a nota do ABCA,
A Associação Brasileira de Capoeira Angola tem o pesar de comunicar a toda a comunidade da capoeira o falecimento do seu Presidente do Conselho de Mestres, o já saudoso Mestre Gildo Alfinete. O sepultamento será a partir das 16:00 de hoje, 12 de outubro, no Jardim da Saudade, em Brotas. Pedimos a tod@s que venham de branco para realizarmos a tradicional roda de capoeira angola, como certamente desejaria nosso querido Mestre Gildo, em sua celebração de passagem ao honroso plano dos ancestrais.

 Gildo Alfinete (Gildo Lemos Couto « 16/01/1940 12/10/2015)

Nascido no bairro de Tororó, em Salvador, iniciou-se na capoeira aos 18 anos com Mestre Pastinha, na Joana Angélica, e passou a treinar com o mesmo no Pelourinho. Participou de diversas viagens com o Mestre Pastinha, em Belo Horizonte; no Maracanãzinho; em Porto Alegre; e no Festival Mundial de Artes Negras em Dakar, Senegal. Participou da refundação da ABCA na década de 1990 e foi um dos grandes responsáveis pela cessão da sede que a Associação ocupa hoje. Era o zelador do maior acervo existente sobre Mestre Pastinha e o Centro Esportivo de Capoeira Angola.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Samba, Cabaré e Polícia na Feira de outrora

Denominada princesa do sertão baiano, Feira de Santana já gozava, nas décadas de 1930 e 1940, de importante prestígio, já tendo sido, inclusive, objeto das mágicas lentes de Pierre Verger, artista francês radicado na Bahia.
Sua história tem sido ao longo dos anos associada a uma cidade que tem origem em um importante comércio de gado e sua principal identidade social constituída em torno da “cidade comercial”. Entretanto, pode-se explorar outros importantes aspectos da história de Feira de Santana, a exemplo das experiências culturais negro-africanas ali constituídas, este é o caso dos sambas que tinham como cenário as contagiosas noites dos cabarés feirenses.
Este breve ensaio de reflexão, que ora apresento aos leitores, trata das histórias daqueles indivíduos, grupos e culturas que não conheceram a pena que pintou os compêndios sobre a Bahia de outrora.
Em suas raízes mais remotas, o samba era ritmo, dança e folguedo coletivos. Caracterizado pelas palmas, batuques e entoações poéticas. As novas características assumidas pelos sambas, como sua veiculação nos meios radiofônicos e a constituição de um mercado compositorial, principalmente, a partir de meados do século XX, já ocupa lugar entre os estudos da sociologia, história, antropologia e etnomusicologia.
Essa produção é evidente, sobretudo no quantitativo de pesquisas acerca do samba no Rio de Janeiro e São Paulo. Na Bahia, as mudanças ocorridas no significado social e cultural do samba tiveram que aguardar um pouco mais, ocupando esta forma de expressão lúdico-percurssivo-corporal, até meados do século XX, ainda o lugar dos batuques que precisavam ser reprimidos pelas autoridades policiais, por serem entendidos como práticas agenciadoras de contravenção penal, a exemplo dos conflitos que ocorriam nas noites dos cabarés. Esta realidade é denunciada pelas fontes históricas que revelam, por exemplo, as batidas policiais aos cabarés em Feira de Santana, em tempos não tão remotos assim.
Nos semanários jornalísticos feirenses que circulavam na sede e nas adjacências da cidade, pelo menos até a década de 1960, constata-se uma quantidade considerável de notícias que informavam sobre as práticas de samba, às vezes identificadas como “batuques” ou “batucadas”.
Muitas das notícias publicadas nesses periódicos, a exemplo do jornal Folha do Norte, informavam sobre os sambas e batucadas que ocorriam nos espaços das festas populares, como na lavagem da festa da padroeira Senhora Santana, ou nos cordões carnavalescos que abrilhantavam a festa de Momo na Princesa do Sertão. Entretanto, não escapava aos noticiários o alerta às autoridades policiais para os conflitos estimulados pelos ajuntamentos de trabalhadores pobres moradores dos subúrbios da Feira.
Em 1948, por exemplo, o leitor poderia ler no Folha do Norte, que “certos subúrbios da Feira, há muito se vem tornando perigosíssimos antros de criminosos e desordeiros”. Informava ainda este periódico que em um desses sambas em um conhecido “Cabaret de Nascimento”, situado no Calumbí, um indivíduo foi ferido a golpes de facão.
Nesta mesma notícia, o jornal questiona quem concede as “licenças para o funcionamento dessas gafieiras que infestam locais outrora pacatos como Baraúnas, e que hoje não podem ser habitados por gente descentes”. Era o bastante para estimular as batidas policiais aos cabarés da cidade.
Por razões como esta, a mando dos delegados, muitos sambas que ocorriam, inclusive, em recintos particulares, como era o caso de muitos cabarés, eram abortados pela polícia. Foi este o caso que envolveu o boêmio conhecido por “Pernambucano”, em 1942, em um cabaré denominado Café Dia e Noite.
Passemos, então a narrar este interessante evento, uma história vista, literalmente de baixo, dos becos escuros de um conhecido cabaré situado à Rua Sales Barbosa.
A Sales Barbosa da madrugada de primeiro de outubro, não era a mesma do agitado cotidiano diurno das vendas de bugigangas e guloseimas da cidade comercial de Feira de Santana, no ano de 1942. Como já era de se esperar os sonoros percussivos dos pandeiros e seus pares instrumentais acompanhado de uma boa melodia, doses de cachaça e requebros de corpos suados chamou a atenção da patrulha policial.
A mando do delegado o samba do Café Dia e Noite, terminou mais cedo. Após a retirada da polícia os boêmios se ajuntaram em uma esquina nas proximidades daquele cabaré. Às três e meia da manhã, solicitou-se novamente a presença da autoridade policial, desta vez, para autuar aquele que tocava e cantava no mesmo samba que havia sido impedido em nome da ordem.
“Pernambucano” foi acusado de espancar violentamente a alguém naquela localidade. Segundo a Denuncia do Promotor Público, ele “esmurrou, derrubou o pobre rapaz para bater várias vezes a cabeça da vítima na calçada”. O acusado foi citado no art. 129 do Código Penal Brasileiro, por crime de lesões corporais, o qual evidenciou a prática e o controle policial do samba naquele cabaré.
Na grande narrativa da história feirense, como a que fez o norte-americano Rollie Poppino, em seu livro intitulado Feira de Santana (Editora Itapoã, 1968), não caberia destacar protagonismos como o de “Pernambucano” e um sangrento conflito que teve origem em um famigerado cabaré, em meio à suor, cachaça e batuque.
Este protagonismo, que revela as experiências de pessoas simples da sociedade e suas culturas marginais, pertence à história vista de baixo. Acreditando neste estilo narrativo, é possível se recuperar as experiências de muitos “Pernambucanos”, muitos sambas e batuques que protagonizaram histórias da Feira de outrora.

Para saber mais:
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. Rio de Janeiro: Codecri, 1979.
MATOS, Cláudia. Acertei no milhar: samba e malandragem no tempo de Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

* Por Bel Pires
** Ilustrações de Gabriel Ferreira

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O JAM DO BECO DA ENERGIA – UMA COMUNIDADE NEGRA QUE GANHOU CORES E RITMOS


Nas últimas semanas, Feira de Santana (BA) tem ouvido falar bastante sobre um movimento de intervenção artística no chamado Beco da Energia, especialmente através da mídia alternativa. Trata-se de uma viela que liga a Rua Marechal Deodoro ao Beco do Mocó, no agitadíssimo centro da cidade. O Beco da Energia, sempre foi  um espaço marginalizado da cidade pelo fato de funcionar ali algumas casas de atividade de profissionais do sexo, mas também ocorre durante o dia um grande comércio ambulante de miudezas, além de bares e residências domésticas. Resumindo, é o Beco da Energia uma comunidade habitada e frequentada por uma população majoritariamente negra e pobre da Cidade de Feira de Santana. A marginalização desse espaço não foi algo que se iniciou recentemente. Identifiquei nos arquivos policiais um processo criminal que tratava de uma briga num agitado samba na década de 1940. Ao abordarem o caso crime, as autoridades policiais falavam horrores da vida social nesta localidade, como sendo ambiente frequentado por indivíduos de alta periculosidade, isto sempre ocorreu com outras comunidades negras. Desta forma, toda referência que a cidade fazia ao Beco da Energia, era de cunho pejorativo e de degradação social. Mesmo as autoridades políticas nunca se importaram com os cidadãos e cidadãs feirenses que vivem nessa localidade. Nos últimos dias, por razões despretensiosas, um conjunto de artistas da cidade, estimulado pelo músico, tatuador e grafiteiro Márcio Punk, começou a deixar as suas marcas coloridas nas estragadas e maltratadas paredes do Beco, dando formas e cores há um dos espaços mais marginalizados da cidade. O curioso de tudo isso é que as pessoas que ali habitam, ao contrário das autoridades políticas locais, passaram a reconhecer a importância dessa intervenção. No último domingo, esta brincadeira que foi ganhando proporção não esperada, reuniu um conjunto enorme de pessoas que se identificam com as atividades culturais da cidade para cantar, dançar e gritar em muitas cores no inesquecível evento intitulado “Jam no Beco”.  Cheguei logo cedo com o meu mano Rios Vibration (músico e capoeirista) e aos poucos fui identificando os grafiteiros pendurados nas paredes, guitarras, baterias e equipamentos percussivos sendo testados e de forma bastante espontânea cada um tomava o microfone e deixava o seu recado na linguagem que o mesmo dominava: declamação, reggae, soul, blues, samba, rock, etc. O beco foi tomado por um processo de reterritorialidade, sendo que desta vez não foi pela força da relação de poder que sempre marginalizou seus moradores. Desta vez os moradores foram os “donos e as donas do pedaço” que permitiram todo este rio de cores e ritmos que sacudiram o “Beco” com muita “Energia”!
E que continue a intervenção artística no Beco da Energia, uma comunidade negra!
*Por Bel Pires

terça-feira, 14 de julho de 2015

Populações Negras e o projeto Chá de Conversa e Som


Projeto cultural apoiado pelo grupo de pesquisa Populações Negras, será retomado no próximo dia 24. Vejam a NOTA de CONVITE!
 
Chá de Conversa e Som é retomado com discussão sobre as dimensões da independência da Bahia

Com o tema “Independência da Bahia: do histórico ao simbólico”, apresentado pelo historiador Sérgio Guerra, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), será retomado depois de pouco mais de um ano e meio o projeto Chá de Conversa e Som.

A atividade será realizada na sexta-feira (24), a partir das 19h30, no Museu de
Arte Contemporânea, de Feira de Santana. Durante o encontro serão exibidos vídeo produzidos pela TV Olhos D’Água referentes à temática principal desta edição do evento.

O destaque musical do 16º encontro ficará por conta de Jefferson Moura e Matheus Mathyara, que além de canções autorais, interpretarão releituras de composições que possuem correlação com a história da Bahia.

O Chá

O Chá de Conversa e Som é um evento da sociedade civil, de acesso gratuito e classificação livre e fundamenta-se em encontros mensais temáticos para “bate-papos” que girem em torno da cultura feirense e territorial.

A atividade é organizada pelo Coletivo Chá, composto pelo artista plástico e percussionista Gabriel Ferreira, historiador e mestre de capoeira angola Bel Pires (Grupo de Pesquisa Populações Negras/Uneb), radiojornalista e coordenador da TV Olhos D’Água da Uefs Elsimar Pondé e pelo artista visual Edson Machado.

SERVIÇO

O que: Chá de Conversa e Som - 16ª edição
Quando: Sexta-feira, 24 de julho de 2015, às 19h30
Onde: MAC - Museu de Arte Contemporânea - Rua Geminiano Costa, nº 255, Centro, ao lado da Biblioteca Municipal - Feira de Santana
Realização: Coletivo Chá
Entrada, chá e torrada: Gratuitos