domingo, 3 de julho de 2011

O Bando Anunciador em Feira de Santana

O Bando Anuciador era uma manifestação constituída de elementos da cultura popular que ia para as ruas da cidade para anuncia os festejos em louvor a Senhora Santana, padroeira de Feira de Santana. Extinto nos anos 1980, varios segmentos sociais e institucionais, vem nos últimos anos recuperando esta manifestação que diz muito sobre a memória afro-brasileira da região. Sobre a edição do Bando Anunciador deste ano, segue um interessante relato do amigo Felipe Freitas, fervoroso militante do movimento social local.

LÁ VEM O BANDO ANUNCIADOR [1]

Felipe da Silva Freitas[2]

Neste domingo, voltou às ruas da cidade o Bando Anunciador da Festa de Sant’Anna. O evento é uma manifestação cultural que anuncia o início da festa religiosa em honra à Padroeira da Cidade e que fora extinto pela Igreja Católica no final da década de 80 tendo sido revitalizado em 2007 através do Centro Universitário de Cultura e Arte. A iniciativa, capitaneada pelo Prof. José Carlos Barreto de Santana, reitor da UEFS, demonstra o quanto a cultura pode ser valorizada com iniciativas simples e o quanto é importante a ação de atores políticos engajados com o desenvolvimento e com a memória da cidade e do seu povo.
Composta por populares, intelectuais, artistas e políticos o Bando é uma linda expressão da sociedade feirense que ocupa as ruas a anunciar as alegrias e tristezas do seu cotidiano numa festa profana cercada de manifestação política e irreverência. Ao som das fanfarras, dos Afoxés, dos sambas de roda o Bando trouxe a rua não só as tradicionais expressões do povo feirense como também as lutas contra os tabus sexuais, a violência contra mulher e a homofobia que de modo irreverente foram tematizadas durante a festa. A Marcha das Vadias – que discutiu o direito das mulheres sobre o próprio corpo – foi a grande novidade da edição 2011 do Bando.
Outro aspecto importante resgatado pela volta do Bando Anunciador às ruas da cidade diz respeito à questão da (inexistente) política cultural na Princesa do Sertão. Ao caminhar pelas ruas mais antigas, os participantes verificam o quanto tem sido negligenciados os prédios e construções antigas da cidade e o quanto falta ao povo de Feira uma política que preserve sua memória e resgate as suas tradições. O Monte Pio dos Artistas Feirenses, o Prédio da Filarmônica, os Casarões da Rua Conselheiro Franco são algumas das muitas construções descaracterizadas pelo interesse econômico das casas comerciais ou abandonadas pela falta de zelo da administração pública municipal. Este ano o Prefeito não compareceu à atividade!
Além disso, o Bando demonstra o quanto uma administração universitária socialmente referenciada pode influenciar na dinâmica cultural da cidade e de que modo intelectuais engajados podem jogar a favor da preservação da memória e da defesa da cultura. Por meio da Pro-Reitoria de Extensão e do CUCA a Universidade tem cumprido – exitosamente – este papel e tem demonstrado que a Universidade Estadual de Feira de Santana pode fazer muito no campo da cultura e do respeito ao povo da cidade.
Enfim, são muitos os anúncios feitos pelo Bando neste ano de 2011! O mais importante deles diz respeito à importância da história como instrumento ativo da luta por cidadania, justiça e igualdade! Oxalá a administração pública municipal e os tradicionais dirigentes do município entendam este anúncio fundamental e assumam outra relação com Feira e com o seu povo!


[1] Este texto é uma homenagem ao professor Zé Carlos, reitor da UEFS; a Ivannide Santa Bárbara, militante do Movimento Negro Unificado e a cantora Maryzélia, artista feirense. Por caminhos diferentes estas três personagens me fazem acreditar na luta em defesa da cultura da Princesa do Sertão.
[2] Felipe da Silva Freitas é bacharel em direito e membro do Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana.
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