quinta-feira, 29 de setembro de 2011

CEAO lança site que reúne textos em jornais do século XX


Já está no ar a mais nova produção do Centro de Estudos Afro-Orientais. Trata-se do site "O negro na imprensa baiana do século XX”. Nele estão catalogadas mais de 1.400 matérias de 13 jornais da primeira década do século passado (Jornal de Notícias, Correio de Notícias, A Bahia, A Coisa, Diário de Notícias, A Ordem, Foia dos Roceros, O Estímulo, Correio do Brasil,  Gazeta do Povo, Correio da Tarde, Correio de Alagoinhas e O Serrinhense). As notícias expressam aspectos da vida social da população afro-brasileira, das manifestações culturais às entidades políticas. 
"O negro na imprensa baiana do século XX” é mais uma fonte de consulta para os pesquisadores e o público em geral. De modo organizado, podem encontrar informações, retratadas por jornais da época, que contribuam para as produções dos estudos afro-brasileiros. A pesquisa contou com o apoio do CADCT (Fapesb) e do CNPq e teve a coordenação do professor do Departamento de Antropologia da UFBA Jocélio Teles dos Santos.
Acesse e divulgue: www.negronaimprensa.ceao.ufba.br

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

"Os Rosários dos Angolas" e "O Direito dos Escravos", dois importantes livros sobre história das populações negras serão lançados na Bahia!

Os Rosários dos Angolas
Irmandades de africanos e crioulos na Bahia Setecentista
Uma abordagem histórica ampla e arejada, que transcende fronteiras territoriais e pressupostos tacanhos, confere ao livro de Lucilene Reginaldo uma perspectiva inovadora ao iluminar com outras luzes um tema já trilhado pelos estudos da escravidão: a história das confrarias leigas de africanos e crioulos articulada à experiência da escravização e à do Império português. Focalizando as irmandades setecentistas de Nossa Senhora do Rosário em cidades da África atlântica, da metrópole e da América portuguesa, historiciza os significados que tiveram para a vivência da escravidão e para a elaboração de identidades africanas fora e dentro do continente. Demonstra que foram um dos locus preferenciais da recuperação de uma humanidade danificada pelas contingências da escravização, tanto por mobilizar sentimentos de pertença, quanto por veicular devoções de livre escolha. Por outro lado, ao iniciar a análise por uma problemática ainda pouco familiar aos leitores brasileiros – a da expansão do catolicismo na África Central –, sublinha a importância de se levar em conta a história pregressa das sociedades de onde vieram partes significativas da população brasileira.  Lucilene Reginaldo nasceu em Santo André-SP, fez graduação e mestrado em História na PUC-SP e doutorado em História Social na Unicamp. È atualmente professora de Teoria e Metodologia de História e História da África no departamento de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana.


O Direito dos Escravos
O abolicionismo, importante movimento social no Brasil do século XIX, foi muitas vezes visto pela historiografia como resultante da ação de homens de sentimentos humanitários, que teriam tido a glória de resgatar os pobres negros do cativeiro. Na contramão dessa memória, este livro evidencia que, em São Paulo, se o abolicionismo ganhou força e substância a partir da atuação de juízes e advogados como Luiz Gama e Antonio Bento, suas principais características se devem ao contato direto desses homens com as expectativas e ações dos próprios escravos. Ao buscar os significados sociais que eles atribuíam ao direito e à lei, este livro questiona as interpretações tradicionais que dividem o abolicionismo paulista em uma fase “legalista” e outra “radical”. A análise de vasta documentação judiciária, da correspondência entre autoridades públicas e de jornais do período torna evidente que a  Elciene de Azevedo possui graduação (1994), mestrado (1997) e doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2003). Atualmente é professora da (UEFS).Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão e movimento abolicionista, história do direito e das lutas jurídicas, experiência de trabalhadores escravos e livres no processo da abolição.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

UFPA concede título de "Doutor Honoris Causa" a Vicente Salles, autor de "O negro no Pará"

Um dos intelectuais mais notáveis do Estado, Vicente Juarimbu Salles,
recebeu da Universidade Federal do Pará (UFPA) a outorga do título
Doutor Honoris Causa, o mais alto dos graus universitários,
normalmente concedido a personalidades que tenham se distinguido pelo
saber ou pela atuação em prol das Artes, das Ciências, da Filosofia,
das Letras ou do melhor entendimento entre os povos. A concessão foi
indicada pelo reitor da UFPA, Carlos Edilson Maneschy – para quem a
obra de Vicente Salles é “um legado de qualidade acadêmica e cultural
de inegável valor.”
Aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitário (Consun), a
outorga foi votada em reunião extraordinária, nesta segunda-feira, 19,
a qual contou com mais de 60 conselheiros presentes, de um total de 98
membros. A votação seguiu o Regimento Geral da Universidade, o qual
prevê que a concessão deste grau deve ter o voto favorável de, pelo
menos, dois terços (2/3) dos membros do colegiado competente.
O parecer nº20/2011 da Câmara de Legislação e Normas (CLN), que se
encontrava em fase de apresentação, teve dispensa de interstício para
ser julgado de imediato, a tempo de que a outorga do título possa
homenagear Vicente Salles em concomitância com as comemorações pelos
seus 80 anos de vida, os quais serão completados no próximo dia 27 de
novembro. “Essa será, sem dúvida, uma ocasião propícia para que a UFPA
possa reconhecer os méritos universais de sua obra”, afirmou o reitor
Carlos Maneschy.
Coroamento de uma trajetória de vida - Em entrevista concedida por
telefone, Vicente Salles, que atualmente reside em Brasília,
demonstrou-se sensibilizado. “Aos 80 anos de idade, estou pronto para
receber muita coisa, as melhores e, até mesmo, as piores notícias.
Essa homenagem a mim concedida pela UFPA, certamente, é uma boa
notícia que recebo como o coroamento de toda uma trajetória de vida.
Um título grandioso que chega a um caboclo do interior e que recebo
com muita gratidão”, disse o pesquisador, após ser informado pelo
reitor Carlos Maneschy acerca da honraria.
Vicente Salles é natural da vila de Caripi, município de Igarapé-Açu,
interior do Pará, donde saiu cedo para estudar na capital, Belém.
Formou-se como Bacharel em Ciências Sociais pela antiga Universidade
do Brasil, atualmente Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Aos 23 anos, começou um trabalho pioneiro de pesquisa do Carimbó,
ritmo musical popular próprio da cultura paraense. E não apenas. Sua
extensa obra dedica-se, de modo geral, à cultura popular e à música,
e, de modo específico, à história do Pará, ao povo local, à literatura
de autores paraenses: uma produção que soma mais de 25 livros e 50
microedições, entre os quais, estão títulos como: O negro no Pará, O
memorial da Cabanagem e Épocas do Teatro do Grão Pará.
Títulos - Membro da Academia Brasileira de Música, seu catálogo de
obras, publicado em 2009, relaciona 661 títulos, entre bibliografia
básica e bibliografia geral. De acordo com a esposa do pesquisador,
Marena Salles, grande parte de sua obra, no entanto, ainda permanece
inédita. “Nenhuma pesquisa sobre música e história do Pará, ou sobre
as áreas em que é referência, pode ser realizada, hoje, sem
mencioná-lo”, afirmou.
Vicente Salles é, também, membro da Academia Nacional de Música; do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; da Comissão Nacional do
Folclore, entre outros órgãos e entidades. Durante toda sua vida,
recebeu diversos prêmios e o título Doutor Honoris Causa da
Universidade da Amazônia (Unama), em 2002.
Museu da UFPA - Na UFPA, Vicente Salles foi diretor do Museu
Universitário (MUFPA) por dois anos, tempo que utilizou para organizar
seu acervo de partituras manuscritas e impressas, discos, fitas,
imagens, livros, folhetos e recortes de jornais. Foi também no MUFPA
que implantou projetos de pesquisa sobre a cultura popular do
cantochão paraense, bandas de música e edição de partituras musicais
em computador.
Atualmente, o Museu da UFPA abriga o Acervo Vicente Salles, no qual
está a coleção completa das microedições do pesquisador (Leia no
Jornal Beira do Rio a reportagem Projeto recupera Coleção Vicente
Salles).
Justiça a um intelectual ímpar - Durante a reunião do Consun que votou
a concessão do título, diversos professores da UFPA manifestaram-se
sobre a colaboração inestimável de Vicente Salles para a produção de
conhecimento sobre o Pará e a Amazônia. Para o relator do processo e
professor do Instituto de Ciências Jurídicas (ICJ) da UFPA, Antônio
José Mattos, o título Honoris Causa “faz justiça a um intelectual
ímpar”, que tem "a obra de um gigante”. Da mesma forma, o pró-reitor
de Extensão, Fernando Arthur Neves, disse que “o título concedido
engrandece não apenas o professor Vicente Salles, mas também a própria
UFPA.”
O diretor do Instituto de Ciências da Arte (ICA) da UFPA, Celson
Gomes, destacou a importância do pesquisador para essa área do
conhecimento, especialmente para a área de Música. “Não por acaso,
Vicente Salles foi o homenageado do V Encontro Nacional da Associação
Brasileira de Etnomusicologia, realizado em Belém, em maio de 2011”,
lembrou.
Interdisciplinaridade - Já o vice-reitor Horácio Schneider destacou,
por exemplo, a importância da obra de Vicente Salles para a Biologia,
mais especificamente para os estudos de antropogenética. “O livro O
Negro no Pará é uma obra de referência, que pavimentou muitas das
pesquisas do Grupo de Estudos em Genética de Populações Humanas, do
qual eu faço parte”, contou. O diretor adjunto do Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UFPA, professor Nelson Souza
Júnior, afirmou que “Vicente Salles é um criador no sentido pleno da
palavra, o qual consolidou a área de estudos amazônicos e gerou novas
possibilidades de pesquisa.”
A cerimônia de entrega do título Doutor Honoris Causa a Vicente Salles
ainda será agendada em data próxima. A expectativa é que o pesquisador
possa vir a Belém para receber a homenagem.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PELUSO RECOMENDOU O APAGÃO DA MEMÓRIA

O presidente do Conselho Nacional de Justiça, ministro Cezar Peluso, baixou uma recomendação (nº 37) orientando os tribunais do país a preservarem seus documentos. Tem 1.800 palavras, e quem a lê sente-se no paraíso. Menciona o Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário e cria mecanismos para a digitalização de processos. Tudo muito bonito até que se chega ao item XX da recomendação:
"Será preservada uma amostra estatística representativa do universo dos documentos e processos administrativos e dos autos judiciais findos destinados à eliminação."
Numa palavra: destruição.
Reapareceu o apagão que há anos ameaça a memória do Judiciário. Do ponto de vista de quem quer se livrar de um papelório que pode chegar a 20 milhões de processos, esses documentos não têm valor. Juntam bichos, mofo e perigo de fogo. Para os historiadores, ali está a História do andar de baixo e, em muitos casos, só ali.
Pela recomendação de Peluso, serão destruídos processos encerrados há cinco ou dez anos. Só excepcionalmente, em casos que envolvem patrimônios, podem durar até cem anos. Deles, sobreviverá apenas uma "amostra estatística".
Esse critério já queimou milhões de processos, entre eles o que tratou da indenização de um jovem metalúrgico que, em 1959, deixou o dedo mínimoda mão esquerda debaixo de uma prensa. Que valor teria o caso banal de um pernambucano miserável? Era o processo do dedo de Lula.
Pode-se sustentar que não compete ao Judiciário gastar dinheiro preservando processos velhos. Também é o caso de se conjurar projetos megalomaníacos de digitalização. Daí a destruir os papéis, vai uma distância enorme. No Paraná, a Justiça do Trabalho publicou um edital abrindo o caminho para o descarte de cerca de 62 mil processos trabalhistas. Felizmente, a Unoeste de Marechal Cândido Rondon pediu a guarda do arquivo, e o caso poderá ser resolvido de forma exemplar.
O doutor Peluso sabe quão prósperos são os grandes escritórios de advocacia. O Rio Grande do Sul preserva 14 milhões de processos da sua Justiça, e isso custa à Viúva algo como R$4,2 milhões por ano (incluindo aluguel, água, luz e telefone). Instituições oficiais de financiamento ou programas do BNDES e da Petrobras, associados a algumas bancas de advogados, poderiam desatar esse nó em outros estados.
Se a destruição for evitada, e os arquivos forem salvos, algum dia uma grande cidade poderá montar um projeto semelhante ao dos papéis da Corte criminal de Londres. No Old Bailey digitalizaram 197 mil julgamentos preservados, com 240 mil manuscritos em que estão 3,35 milhões de nomes daralé que passou pela Justiça entre 1674 a 1913. Essa papelada ensina que, em 1889, um sujeito era acusado de ganhar 20 libras para enviar uma jovem a um bordel brasileiro. Graças à preservação de um censo dos hóspedes da prisão de Holloway, sabe-se que, em 1881, lá esteve Edward Glassborow, tataravô de Kate Middleton, duquesa de Cambridge.
Fonte: O Globo - 11/09/2011 Apud http://www.anpuh.org/

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

E AQUELES QUE ERAM PRA DAR SEGURANÇA!

Car@s colegas,
em solidariedade aos estudantes da UFRB, publicamos a nota que se segue, a qual constitue um manifesto de denúncia. Se alguém se achar prejudicado por esta publicação, terá também o direito de publicar sua manifestação. Independente de qualquer coisa, o grupo de pesquisa Populações negras: pesquisa e extensão (UNEB/CNPq) não se furtará de apoiar estudantes negros ne não-negros em situações de conflito. 
Att: Prof. Dr. Josivaldo Pires de Oliveira (Bel).
Segue a nota:
"Não é com satisfação que viemos denunciar: Jaques Wagner e ACM vestem a mesma farda facista! As cabeças que descansam hoje no mirante de Ondina como as de ontem, têm a mesma cor! Nós, estudantes negras e negros residentes na cidade de Cachoeira estamos juntos com outras entidades do movimento social e professores da UFRB organizados para denunciar o racismo, a banalização da violência e o abuso do poder na conduta da Polícia e da política de (in)segurança pública do Estado da Bahia perante a comunidade de Cachoeira.
A agressão policial, física e verbal, da qual foi vítima a estudante negra Flávia Pedroso durante a apresentação de bandas de Reggae do Recôncavo nos festejos da Boa Morte é o ponto comum onde se encaixam várias das mais diversas formas do genocídio cultural e político da população negra. Uma prática contínua que tem os pés fincados na Casa Grande. Em pouco tempo os manipuladores da democracia e da insegurança reprimiram uma manifestação cultural e política da juventude negra do Recôncavo desligando o som e agredindo com tapas membros da produção, agrediu com palavras irrepetíveis à mulher negra e negaram o direito à denúncia dos crimes de racismo e violência contra a mulher, assim como exames de corpo de delito. Enquanto isso rodou mais de 50 quilometros com a jovem negra numa viatura da Polícia Militar para acusá -la de desacato à autoridade por ter perguntado o nome de uma das policiais agressora. Exigimos respeito aos direitos civis da população e repudiamos a manipulação da lei e do direito do cidadão quando coloca como réu a vítima de agressão racista e machista. Nossa ação política soma-se a esse conjunto de fatos para evidenciar que não é de hoje que a truculência do poder estatal criminaliza a juventude negra, negando-lhe a liberdade de denúncia e expressão, mesmo via música negra, e exigi o cumprimento dos direitos políticos da população negra violados pelo mesmo Estado.
Assim como em Salvador e região metropolitana, a população negra nas periferias de Cachoeira vive sofrendo estas agressões e violações de seus direitos. Nas rotineiras rondas que fazem nestas localidades os policiais além de revistar as fraldas de crianças e “implantar” droga no bolso dos jovens, têm obrigado as mulheres do Candomblé a retirarem o Ojá que protegem seu Ori argumentando procedimento de revista rotineira.
A invasão ao Terreiro do Ventura, motivo de Caminhada do povo de Axé da cidade em 19 de novembro de 2010 e a agressão policial sofrida pela Iyalorixá Ya Bernadete no Assentamento Dom Helder Camara em Ilhéus, demonstram que este conjunto de situações trata-se de uma ofensiva da qual nenhum negro e nenhuma negra estão a salvo. Denunciamos tais agressões contra as sacerdotisas do Candomblé, tradição religiosa do povo negro de Cachoeira e da Bahia. O ódio religioso verificado nas diferentes formas de violência às religiões de matriz africana reiteram as tentativas de genocídio cultural como face do racismo estrutural contra o povo negro do Brasil. Falando a partir da experiências das escravizadas em Cachoeira vemos a resistência secular do povo negro. Estes eventos se conformam em verdadeiras atrocidades contra o sagrado das Y ias no lugar da mais importante organização de mulheres negras, da mais antiga Irmandade de Mulheres Negras do Candomblé. Sua história e outras do povo negro do Recôncavo nos inspira a resistir até os dias de hoje, justamente por confrontar o sistema escravista que sempre teve a polícia como seu braço armado, legitimado pelo estado para prender e matar “negros fujões e rebelados”, nossas lideranças, para as quais a Boa Morte se organizava para compra da Alforria.
Agressões da PM da Bahia à jovens negros/as tem sido recorrente nos fins de semana, no São João de Cachoeira, assim como foi no dia 13 de agosto do ano corrente, quando foi contra todos os nossos direitos sociais e individuais. Não há qualquer justificativa que possa nos convencer das agressões nas abordagens. Trata-se de uma prática sistemática de violação dos direitos constitucionais do povo negro do Recôncavo a terra, lazer, informação e educação. No nosso quilombo urbano ou nos quilombos rurais castram nossa liberdade e instauram a insegurança entre nós, haja vista as irregularidades do último caso:
· quando uma pessoa é conduzida à Delegacia por policial civil ou militar, ela deve ser imediatamente apresentada ao Delegado de Polícia e tudo que acontecer com a pessoa dentro da Delegacia é de responsabilidade do Delegado de Polícia, a única autoridade Policial de fato;
· quando uma pessoa é agredida nas dependências da Delegacia, o Delegado também poderá responder por crime de tortura, assim como, as mulheres devem ser revistadas por policiais femininas, e que policiais não podem gritar com a pessoa, xingá-la, agredindo-a, o que configurar crime de racismo, violência à mulher injúria ou até mesmo de abuso de autoridade;
· todo policial deve estar identificado e quando solicitado deve apresentar sua carteira funcional.
Não aceitamos mais contar vidas e talentos aniquilados pelos estereótipos criados pela instituição policial, perseguindo e matando nossos jovens pobres e pretos. Não aceitamos que o policia exerça a segurança privada dos brancos detentores do capital econômico e político no Brasil, enquanto dispensa tratamento historicamente diferenciado para negros e brancos, pobres e ricos, mulheres e homens, homossexuais e heterossexuais.
A interiorização da violência (Mapa da Violência 2011) atinge não só nossas periferias através da Polícia como também pela grande mídia sensacionalista, instrumento ideológico de legitimação das truculências dos militares em nossas comunidades, sob a justificativa de combate ao narcotráfico. Outras formas de atuação repressora da (in)segurança pública no interior são as ações de milícias para o intimidamento de lideranças quilombolas e indígenas no campo, muitas vezes, militares acionados por “senhores de engenho” contemporâneos que não aceitam perder seus privilégios na concentração de terra e renda. A região do Recôncavo e Sul da BA são as principais áreas de atuação dessas organizações criminosas.
A violação que vem sofrendo a centenária Roça do Terreiro do Ventura e outros terreiros de Candomblé da região, os ataques de grileiros e fazendeiros ao povo dos quilombos do São Francisco do Paraguassu e do Vale do Iguape e as agressões gratuitas às mulheres negras que têm seus territórios invadidos é comum na rua pelos (ir)responsáveis pela manutenção da (in)segurança pública. Esses ataques são apoiados por parlamentares representantes dos ruralistas, grileiros e latifundiários que em Brasília contestam a constitucionalidade do decreto 4887/03 que regulariza territórios quilombolas, pela Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 3239/04), de autoria dos DEM, (ex-PFL) em tramitação no STF (Supremo Tribunal Federal).
É tempo de lutar por REPARAÇÃO AO POVO NEGRO. O Estado agora é que deve nos pagar indenizando a dívida social para com a população negra e pelos crimes de lesa a humanidade conforme Deliberações da Conferência Internacional de Durban em 2003.
“Nunca morremos, nunca morreremos calados, não silenciaremos!”
O povo de Cachoeira e do recôncavo está gritando BASTA! Não queremos mais dormir e acordar com medo da violência, não precisamos de uma polícia que atua de maneira truculenta, racista, homofóbica, machista e genocida, agindo em favor de grupos de poder. Exigimos uma Audiência Pública para tratar do problema da Segurança Pública na cidade.
REAJA À VIOLENCIA RACIAL ! REAJA OU SERÁ MORTA ! REAJA OU SERÁ MORTO ! REPARAÇÃO JÁ!
Núcleo de Negras e Negros Estudantes da UFRB - NNNE
Comunidade do Viradouro, Cachoeira - BA
Movimento Negro Unificado - MNU
Associação de Familiares e Amigos de Presidiários – ASFAP
Quilombo Xis – Ação Cultural Comunitária
Campanha REAJA!
Posse Conscientização e Consciência - Lauro de Freitas
JACA - Juventude Ativista de Cajazeiras
Centro Acadêmico de Jornalismo da UFRB
Movimento Rumo ao Socialismo
Movimento de Mulheres do Subúrbio
Coletivo Contra Corrente
Coordenação Regional de Estudantes de Ciências Sociais/UFBA
Coletivo Além dos Muros
Coletivo Aqüenda! de Diversidade Sexual!
Barricadas fecham ruas, abrem caminhos!
ENECOS - Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social"

domingo, 4 de setembro de 2011

Iyá Ogunté:O lugar da mãe guerreira



“A Dona do mundo faz do alcance o seu dizer
Ter água no corpo é merecer”
Tiganá Santana


Iemanjá é a senhora das águas do mundo. Abrigo e gerência de tudo que é vivo, sentido profundo das fragrâncias do feminino no que salta aos olhos e, também, no intraduzível. É a mãe belicosa que arrebenta as marés, debate-se em rochas, empunha o alfanje, socorre e mata, em nome do amor que a orienta. Energia aquática soberana de peixes e sereias, reflexo das donzelas querendo amar nas areias, símbolo da mulher-mãe que comanda seu lar.
Iemanjá é o mito que transborda a essência das águas, desperta a vida, cuida sem parar do infante humano em sua caminhada de abandonos. Ela habita as algas, transmuta-se em polvo, arraia, golfinho; às vezes, é a poderosa baleia; outras, sereia; do mar, no íntimo da água salgada, ela zela poeticamente pela existência potável do que mata a sede e dá vida ao que pode viver no território terrestre.
Ela é a dança do sossego. E a fúria intempestiva dos mares. Espalha oxigênio pelo mundo segurando as cabeças que compõem a humanidade. Qualidades da mulher que adolesce e da que envelhece em contrapartida. Equilíbrio entre beleza e segurança, ela toma conta de tudo que lhe afeta e se ilumina na força que a traduz: os elementos aquáticos.
Escorre dela também doçura.  Seus movimentos são lentos e oportunos, ela sabe chegar em sua majestade e marcar sua presença na luminosidade dos seus símbolos. Forte como a pedra do absoluto, translúcida e aderente como suas águas, delírio de pescador, uma senhora do cotidiano e quando mais perigo, ela é o mistério difuso que amedronta e afasta como os oceanos longínquos.
O negro feminino que pariu a Terra nascida da grandeza dos mares.  Iemanjá é puro encanto. O que se desliza e atinge; alcance e representação da esperança. Sua energia ocupa qualquer lugar e ela imprime proteção na alma de quem a entende. É quem aglutina gente e desintegra os desertos. Mulher que se abastece nos vestígios de fé que perfumam e enfeitam sua casa e se enfurece com o dessentido da poluição.
Iemanjá baixa nos terreiros no frescor da generosidade e da vaidade que a definem. Destacado alicerce da fé do povo do candomblé e musa sagrada inconteste das ressignificações que deram à sua personalidade divina. Ela é a dona do mundo.
Uma canção divina que nos embala para cuidar-nos. Segredos dos pescadores – Odô Iyá – frente a rios e mares, o pratear do xaréu nas manhãs baianas que alimentam a vida. Mulher de partilhas e abrigo no ventre. O feminino se ordenando – o comando político certeiro para que haja coexistência. A mulher ninando a cria com a mão de poesia na cabeça dos filhos sonhando. A mulher banhando cada sorte, cada caminho.
Iyá Ogunté nesses atalhos do Brasil. Deusa iorubana incrustada no Rio Ogum – avalanche de águas doces e salgadas nessa esfera mítica do humano viver. Deusa negra e original da afro-brasilidade. Seios fartos de leite e procura, divindade condutora da saúde dos pensamentos.
Iemanjá – serena representação no bairro do Rio Vermelho. Aquela mãe de todos nós que inspirou o poeta: “ter água no corpo é merecer”. Erú Iyá.
P.S. - Iyá de mim, Senhora que me ocupa, Mãe da minha proteção, Guardiã dos meus mistérios mais profundos, Dona das minhas sentenças, Voz maior na minha audição, Luminosidade na minha vida, Fonte inspiradora dos meus escritos, Baluarte que me conduz, Insígnia do meu princípio, Alfange que corta a favor de mim, Água que me purifica, Beleza que me anima, Útero que me dá paz, Nome que dobra em meu nome, Encanto das minhas certezas, Âmago da minha fé - Motriz absoluto da minha existência que é nada sem a energia aquática da Sua Presença.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Estudos africanos são temas de minicurso no CEAO

O Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) e o Programa de Intercâmbio Sul-Sul para a Pesquisa da História do Desenvolvimento (Sephis) realizam o minicurso "Estudos Africanos - Relações Índia e África”, de 13 a 15 de setembro, das 18 às 21h, na sede do CEAO, Largo Dois de Julho. O evento é gratuito. Os interessados devem se inscrever pelo e-mail: alyxandrasephisbrasil@gmail.com.
A professora Renu Modi, da Universidade de Mumbai, ministrará as aulas do curso que faz do programa Lecture Tour, ciclo de palestras sobre tema relevante para os Estudos Africanos no Brasil. No minicurso, dará especial atenção às relações entre Índia e África e também ao que concerne às migrações de africanos e relações raciais.
Um pouco sobre a palestrante – Renu Modi é pesquisadora sênior do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Mumbai, na Índia. É cientista política graduada pelo Lady Shri Ram College for Women, em Nova Delhi. Seus livros são: Beyond Relocation: The Imperative of Sustainable Resettlement e South-South Coopertion: Africa on the Centre Stage. Além disso, já publicou sobre relações econômicas entre Índia e África numa perspectiva tanto histórica quanto contemporânea e trabalhou como consultora para desenvolvimento social para o Banco Mundial em 2005.
Minicurso: Estudos Africanos – Relações Índia e África
Quando: 13, 14 e 15 de setembro, das 18 às 21h
Onde: CEAO, Largo Dois de Julho
Quanto: Gratuito
Mais informações: alyxandrasephisbrasil@gmail.com / (71) 8724-6364