quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Pensar e Construir!!!

Não sei se a vida é longa ou Curta demais
So sei que nada faz sentido
Se tocarmos o coração das pessoas
Muitas vezes pode ser braço que acolhe...
Silêncio que respeita...
Feliz é aquele que tranfere o que sabe
E aprende o que ensina...

Cora Coralina.


A apartir do momento em que vi e ouvi esta mensagem belissíma na sala de aula pensei logo no blog para postar. Pensei se realmente faz sentido, ou seja, na vida da gente seja o preconceito, a discriminação, o bule,
os conflitos de bairro entre tantas outras .Entretanto, não faz sentido, pois nem mesmo sabemos quanto tempo é a nossa vida e por que não aproveitarmos com amor fazendo com que vissemos o outro como irmão e não como rival.
É preciso tratarmos bem as pessoas por que assim construirmos um mundo melhor e ao mesmo tempo é estar amando a si próprio.

Simone Souza

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Cláudia Leite e a África da sua cabeça: uma reflexão

Car@s,
Depois de ter assistido a homenagem que Cláudia Leite fez a África, personalizando seu Trio e seu Camarote, resolvi refletir sobre.
Prof. Josivaldo Pires (Bel)

O carnaval é uma festa incrível, serve para muita coisa: comer, beber, brincar, namorar, etc. Mas também serve para pensar! Desta forma resolvi socializar um momento de reflexão, o qual não me veio enquanto estava na folia, veio exatamente nos momentos de memória durante a ressaca da festa momesca.
Havia me organizado para adiantar trabalhos que estão com prazos vencidos em minha casa durante o “feriadão” do carnaval, quando me veio o convite da querida esposa. Queria que eu a acompanhasse à festa do carnaval em Salvador, o que aceitei de pronto (não costumo decepcionar minha querida amada, rsrsrsrs). Então fui com a companheira ao circuito da festa quando tive a surpresa que me custou a presente reflexão. Enquanto andávamos no Circuito Barra/Ondina me chamava atenção algumas pessoas com um abadá que estampava a cara de um animal, o que se repetiu nos dias subseqüentes, sendo a cada dia um animal diferente: leão, elefante, etc. Quando eu menos esperava lá vem o trio da cantora Cláudia Leite, notória representante da chamada “música baiana”, o Axé Music e ao parar em frente ao seu Camarote pronunciou: “essa é minha selva”. Para minha surpresa e decepção o tema de seu Camarote era: ÁFRICA.
As estampas que ilustravam tanto o Camarote quanto o trio eram rajadas que lembravam a pele da Zebra ou Girafa. O slogan ainda contava com o perfil de Claudia Leite com um trato crespo no cabelo e uma expressão facial que sugeria uma mulher “selvagem”. A representação de África para a cantora Claudia Leite em sua homenagem ao continente negro não passava destes elementos descritos acima. A representação de África se limitava aos animais selvagens. Esta era a África da cabeça de Cláudia Leite!
Não sei qual a intenção da cantora, que ao homenagear o continente africano retratou apenas a sua fauna, ou pelo menos dois ou três elementos desta. O fato é que este tipo de referência como representação do continente africano já me cansou o juízo.  A história e cultura africana foram por muito rejeitada até mesmo ao merecimento de estudos históricos. Entendiam os “donos” do saber no mundo ocidental que África não tinha cultura nem civilização, portanto não justificava empreendimentos de investigação científica sobre o continente negro. Essa realidade começou a mudar em meados do século XX com o surgimento de importantes grupos de estudiosos africanos que juntamente com o sentimento de libertação nacional desenvolveram releituras sobre a história e cultura africanas a partir daquele momento. Intelectuais negros como o pan-africanista e egiptologista Cheikh Anta Diop prova através de estudos históricos, antropológicos, paleontológicos, etc (isto mesmo, Diop era um gênio das ciências do homem) que as referências das populações africanas eram outras: desta forma aprendemos com Diop que Tarzan não era herói, que Cleópatra não era branca e que África tinha histórias e culturas que precisavam ser melhor exploradas. Ou seja: a África não poderia e nem pode ser representada apenas pela sua diversidade animal!
No Brasil também avançamos bastante neste sentido. Hoje contamos com programas de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado) em estudos africanos e afro-brasileiros; contamos com uma legislação federal que obriga o ensino de África na educação básica; contamos com políticas de ações afirmativas para a população de origem africana; com políticas de cooperação entre o Brasil e África. Por tudo isto não cabe mais nos dias de hoje a representação da África como aquela feita pelo Camarote da cantora Cláudia Leite no Carnaval de Salvador deste ano de 2012.
Para concluir, registro para os colegas que esta é apenas uma opinião, resultante do momento de curtição da ressaca do carnaval, pois não nego minha condição de folião. Por fim, não posso deixar de registrar que encerrei minha noite acompanhando o Bloco Afro Malê de Balê e neste a representação de África nunca se resume em leões e elefantes selvagens.
*Imagem extraída do site: www.ospaparazzi.com.br [citado em 24/02/2012]

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mulheres negras, volência e Ilê Aiyê: uma denúncia!

Colegas,
Foi com susto que recebi e-mail com a carta que se segue. O documento é assinado por Dayse Sacramento, professora da rede básica de ensino e mestranda da UNEB. Publico este documento porque acredito no sentimento de Dayse e me solidarizo com ela. Entretanto, o Ilê Aiyê, terá o direito de resposta e o mesmo será publicado neste mesmo espaço. O caso relatado é muito sério, por isto acredito que a presidência do Ilê deverá se manifestar a respeito.
À professora Dayse Sacramento nossa solidariedade.
Prof. Dr. Josivaldo Pires de Oliveira


Quem repara violenta: mulheres negras são oprimidas pelo machismo no Ilê Aiyê


       A ordem arriscada do discurso de Foucault me obriga a começar este desabafo dizendo quem eu sou e qual é o meu lugar de fala. Sou Dayse Sacramento, mulher negra, solteira, heterossexual, graduada em Letras pela Universidade Católica do Salvador, na qual fui militante do movimento estudantil, vice-diretora da rede pública estadual de uma escola em Paripe há dois anos, agora saindo do cargo para estudar, Especialista em Educação e mestranda no programa de Crítica Cultural da Universidade do Estado da Bahia, tendo como sujeitos da pesquisa meninas negras da FUNDAC, filha de Dona Angélica e neta de Dona Mariá da Liberdade. As informações que acabo de citar representam as minhas identidades que estiveram/estão em conflito depois da minha iniciação no bloco Ilê Aiyê, na terça-feira de Carnaval.


            Certamente, o currículo da minha vida revela o que representa para mim acompanhar do lado de fora da corda o “mais belo dos belos” ou estar presente na Senzala do Barro Preto para prestigiar as atividades de tão importante instituição de resistência negra no mundo inteiro. Ainda assim, para mim, acompanhar o bloco de fora, mesmo com as resistências que tenho com relação aos blocos de corda eu queria estar lá dentro, vivenciado as canções de um bloco que reverenciam a mulher negra, enaltecem a sua beleza tão diversa, composta por elementos que são fruto do preconceito racial e, principalmente, pela representação política do que estar dentro da corda representa. Ledo engano...


            Depois de acompanhar o bloco como pipoca sábado e segunda, na terça, resolvi comprar a minha fantasia para realizar uma vontade que já me acompanha a alguns anos e para acrescentar no meu discurso sobre o bloco o que é estar lá dentro, vivenciado de fato uma experiência de ser incluído (e estar dentro!) do contexto de um bloco afro de Carnaval. Entretanto, fui surpreendida por dois homens no início do percurso, os quais não havia tido o imenso desprazer de encontrar ou conhecer antes como a seguinte exclamação: “Pessoas como você sujam e envergonham o bloco Ilê Aiyê!”. Assustada, perguntei a eles se aquilo fazia parte de alguma brincadeira e o mais enfático, leia-se grosseiro, tosco e mal educado, respondeu: “Ano que vem, a gente vai botar gente como você para fora, sua indecente. Você deveria respeitar o bloco!”. Já aos prantos, me dei conta de que eles se referiam à minha fantasia reformada, apenas a blusa como um tomara-que-caia, com a barriga coberta e a saia continuava intacta, não reformei. Felizmente, eles mexeram com a pessoa certa! Pedi aos gritos, mesmo tom de voz que eles utilizaram comigo, que eles me respeitassem, que não sabiam da minha história e quem eu era e que se gostariam de me recomendar cuidado com o meu traje que isto se desse de forma educada e que fosse feito com todas as outras associadas que haviam feito reformas em suas roupas com o uso de tops, vestidos, minissaias, mistura de tecidos, etc, muitas registradas em fotografias que tirei durante o desfile. Quando eles perceberam que eu os peitei e respondi, um deles, cujo o nome é Fernando Ferreira Andrade Filho, dirigente do bloco, me segurou pelo braço e me encostou no trio em movimento e continuou a me insultar. Quando as minhas amigas viram, partiram para cima dos dois, e agora um outro, também dirigente que não consegui identificar, já segurava o meu braço dizendo: “Olha pra isso, o que é isso!”, apontando para mim, me tratando de forma “coisificada”, com desdém e mesmo com o meu apelo para que soltasse meu braço ele continuou a me humilhar e a me acuar contra o carro. Neste mesmo momento, um dos filhos do presidente do bloco, que sequer acompanhou a ocorrência largou a seguinte pérola: “Na Timbalada, ninguém faz isso!” e eu respondi: “De fato, na Timbalada, ninguém nunca me pegou pelo braço e me acuou contra um carro em movimento, nunca fui violentada lá dentro.”. Ainda não satisfeito, Fernando Ferreira, a saber médico que trabalha no HGE, me disse: “Você comprou sua fantasia nada! Sabe lá como você chegou até aqui!”. Muitos associados e associadas, ao perceberem a confusão afastaram os homens, e se solidarizaram com a situação, tentando me acalmar. Neste momento, muitas mulheres com as fantasias reformadas vieram até mim e disseram que já existe um histórico de agressões feitas por estes senhores, ou seja, já existe um histórico de agressões às mulheres associadas, cordeiras e funcionárias.


            No meu caso, quero deixar claro que “o bicho vai pegar”, que não vou recuar e que já comecei a tomar as devidas providências. Com os ânimos a flor da pele, eu e minha amigas resolvemos sair do bloco para fazer alguma coisa. A esta altura, eu já estava morta de vergonha pelos olhares de todas as pessoas de dentro e de fora do bloco para mim depois de vivenciar uma situação tão constrangedora. Preciso ressaltar que uma patrulha de policiais militares nos pararam a caminho da delegacia e ao relatar o fato eles me perguntaram se eu tinha testemunha e se eu queria dar o flagrante. Estes foram os 10 segundos mais longos da minha vida. Eu, militante da causa, admiradora do bloco e das representações que ele sempre teve para mim iria entrar no bloco, acompanhada pela instituição que historicamente reprime/ maltrata/ mata as pessoas da minha cor para retirar de lá dois dirigentes do bloco por agressão física e verbal? Logo me veio também aquilo que só uma mulher que sofreu violência sabe pelo que passei: o medo de represálias. Eu não aceitei a proposta do flagrante e não quero avaliar se ela foi ou não acertada, mas do que estou certa é que fora moralismo e o meu saudosismo político esta situação precisa de amparo, de justiça. Resolvi prestar uma queixa no Observatório do Racismo por conta da natureza do bloco e num posto conjugado da Polícia Militar em São Bento, com algumas pessoas como testemunha. Amanhã, estarei na Delegacia de Atendimento às Mulheres para complementar a ocorrência, vou ao PROCON e a procura de uma advogada ou advogado que sejam militantes da causa racial.
            Deparei-me com Vovô do Ilê, então presidente do bloco e tentei reconstituir o meu desespero. Ele então me fez a seguinte pergunta: “Você mostrou a ele a sua carteira?” e me deu as costas e saiu andando, como se eu não existisse. O bloco que incita o empoderamento das mulheres negras nas suas canções precisa concretizar este fato em ações. A instituição deve fazer uma avaliação sobre a sua estrutura e sobre as pessoas que a dirigem, principalmente em respeito à maior liderança que já teve, a Mãe Hilda. É urgente que o Ilê repense o direito e o respeito às candaces quando na sua diretoria a quantidade de mulheres não chega a quantidade dos dedos de uma mão.


            O que ficou exposto na conduta dos dirigentes em questão é que além da violência gratuita, a incapacidade de diálogo deu-se por uma questão mercadológica. Certamente, há pessoas que fazem duas fantasias de uma só, mas, no meu caso, estava claro que pelo comprimento da roupa era impossível que eu tivesse dividido a fantasia com outra pessoa. Mesmo que eles suspeitassem desta possibilidade não é com a opressão/ violência física e verbal que isto se resolveria, principalmente se pensarmos nesses homens como agenciadores culturais. Para mim, isto também se agrava quando penso na concepção de beleza negra que o bloco defende e que não permite adaptar a fantasia ao meu corpo, às condições climáticas me desqualificam ao ponto de “sujar” e “envergonhar” o bloco. Não entendo esta visão levando em consideração a uniformização proposta pela moda que sempre nos excluiu. Obviamente, entendo a preocupação do bloco com as formas de adaptação da fantasia, mas nada justifica tal violência que me impuseram e que estará cravada na minha memória por muito tempo.


            Escrevo este texto para conclamar um coletivo de mulheres negras, principalmente, além das pessoas as quais confio à militância para que tomemos providências. As ações das políticas afirmativas e das instituições que fazem uso deste discurso devem ir de encontro à consolidação de uma cultura sexista, classista, homofóbica. Estamos tratando da criação, da manutenção e do respeito aos direitos humanos, que violados numa instituição como Ilê Aiyê, exige de cada militante sério uma postura de enfrentamento a toda e qualquer violência. Sou uma pessoa de participação política tornando-me negra. Ser negra é um compromisso. A negritude da minha pele é uma cor política e procuro agir desta forma.
           
            Mais uma vez, é chegada a hora da “lavagem de roupa suja” da militância negra na Bahia para questionar a postura do homem negro que oprime as suas mulheres com um contradiscurso daquilo que dizem acreditar, militar. O homem negro precisa tratar melhor as mães dos seus filhos, as suas companheiras, àquelas que o carregaram no ventre.
           
            Um amigo acaba de me dizer o velho ditado que “pimenta no dos outros é refresco”. Ele me disse isso e me lembrou que eu também sou uma “menina” negra como as meninas da FUNDAC, com a diferença de que eu tenho o aparato acadêmico, cultural, intelectual e da rede de relações que elas não têm. Agora eu sei bem o que vou pesquisar, estou sentindo literalmente na carne.
            Espero que fique entendido que o meu respeito pelo Ilê permanece e a minha presença esta garantida para qualquer debate sobre a questão de forma séria e respeitosa. O Ilê Aiyê é muito maior do que todos os seus dirigentes. Cada uma de nós, mulheres negras e homens negros formamos este bloco e a sua história. Nós lutamos para que ele estivesse na rua quando nós negros tínhamos que preencher uma proposta para se tornar associado de blocos brancos, inclusive aquele que tinha um camarote na curva da Castro Alves. As suas ações devem estar voltadas para nós, não contra nós. Estou botando a boca no trombone porque concordo com o que nos disse Luther King que "o que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.". Eu sou boa gente, por isso não vou deixar de falar e eu falo alto.
 Saudações,


Dayse Sacramento
dayse.sacramento@gmail.com
Fonte: texto fornecido pela própria autora

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Para Refletir!

O negro fez tudo. Ao negro deve-se tudo. A história do Brasil estar empregnada no ser negro e seu trabalho escravo do negro é o centro, o núcleo do seu antepassado. Tudo deriva do trabalho escravo do negro, nada tem a importância sem a presença do negro, pois tudo faz parte na vida da gente e ainda digo:
_ Aquele que sofreu a escravidão nos legou uma nação: o negro.

 Monitora: Simone Souza.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Pesquisadores negros da UFBA são vítimas de racismo em Salvador

Car@s,
É com certa frustração que utilizo este nosso veículo de informação para publicar a Carta Denúncia do doutorando Orlando Santos, que relata a violência sofrida por ele e pela doutoranda Waldinéia Sacramento. Em nome do grupo de pesquisa Populações Negras e toda a comunidade da UNEB, declaro solidariedade aos colegas e repudio os atos do senhor agressor narrado na Carta que se segue.
Prof. Dr. Josivaldo Pires de Oliveira
Universidade do Estado da Bahia/Campus XIII
***
“MACACO E NEGRO-PREGUIÇOSO”
RELATO DE UMA DEPLORÁVEL CENA DE RACISMO, VIOLÊNCIA FÍSICA E XENOFOBIA
 Prezados Colegas, Amigos e Professores,
Venho por este meio, narrar um triste episódio envolvendo atos de discriminação racial, violência física e xenofobia, do qual eu Orlando Santos e Valdinéa Sacramento, estudantes da Universidade Federal da Bahia, fomos as vítimas.
Eram cerca de 11 horas do dia 12 de janeiro do ano em curso, por sinal dia da “Lavagem do Bonfim”, quando saí de casa com destino ao edifício São Rafael, situado na Rua Tuiuti, Largo Dois de Julho. O propósito foi, junto com Valdinéa, tratar de questões de caráter acadêmico-profissional. Terminado o trabalho e, num dia de muito sol e bastante calor, decidimos brindar o sucesso de um dia produtivo de trabalho com uma cervejinha e trocar algumas ideias relacionadas às nossas pesquisas de doutorado em curso.
Optamos então por ficar na barraca do Senhor Zé, situada em frente ao edifício São Rafael, onde mora Valdinéa. Nos aproximamos da barraca de Zé e, fizemos o nosso pedido. Sentados, começamos a conversar. Havia outras pessoas conversando e bebendo cerveja. Instantes depois, três das cerca de quatro pessoas que se encontravam no espaço se ausentaram, ficando apenas um senhor de idade que as acompanhava. Escutando o “meu sotaque diferente”, perguntou de onde eu era e começou um diálogo comigo e Valdinéa, narrando sua experiência no Gabão, no início da década de 70, experiência por ele classificada como péssima e ruim, como já se tornou norma nesses relatos pitorescos de “viajantes”, onde a busca intencional pelo caótico e exótico acaba por ofuscar qualquer diálogo real e equitativo com o contexto local.
Após escutar atentamente o relato do senhor sobre o Gabão, procurei acrescer alguns elementos de contextualização histórica sobre o referido país, localizado na costa atlântica da região central do continente africano. Lembrando que no ano de 1970, Gabão tinha cerca de uma década de independência política e que, trata-se de um país que devido à abundância de recursos naturais, investimentos privados e boa gestão pública, tem sido considerado pelas estatísticas internacionais como um dos países mais prósperos da região subsaariano do continente africano, mas como é de praxe, o homem se mostrou irredutível na sua análise.
Nesse momento aproxima-se de nós um individuo, fora do contexto do nosso diálogo, em tom agressivo, gritando “os africanos é que começaram com tráfico de escravos, são eles os responsáveis pela escravidão”, por essa altura, disse a esse senhor que iria me retirar desse tipo de debate e me afastei um pouco. Não conformado, o intruso de nome Lázaro Azevedo, morador do edifício Tuiuti, 33, apartamento 201, num tom agressivo foi insistindo em manter a conversa. Voltei a dizer que me recusava a responder as suas infundadas provocações, primeiro porque estava visivelmente embriagado e, segundo porque sua fala demonstrava uma ausência do mínimo de conhecimento sobre a história da Bahia, do Brasil e muito menos do continente africano.
Fracassado no campo das idéias e visivelmente incomodado, o indivíduo decidiu apelar para a ação “Pit Bull” tentando me agredir fisicamente, desferiu um murro em direção a mim, atingindo de raspão a parte direita do meu rosto. Ainda assim evitei qualquer tipo de confronto corporal. Nessa altura, Valdinéa que estava do outro lado da rua, conversando com uma colega que passava, correu para junto de nós para tentar apaziguar. Ainda assim, o homem esbanjando ódio pelos poros tentava se atirar contra mim.
Daí que, optamos por nos retirarmos do local mas, quando nos dirigíamos a porta do edifício onde mora Valdinéa, o indivíduo nos perseguiu até a portão tentando ainda nos agredir fisicamente. Foi nesse momento, quando o porteiro do edifício se aproximou para evitar que fôssemos agredidos, afastando o indivíduo de nós, este inconformado e num ato da mais extrema covardia e crueldade deu um tapa na cara de Valdinéa que se desequilibrou e caiu na escadaria da entrada do prédio, não acontecendo o pior porque me encontrava ao lado e consegui evitar que batesse a cabeça num dos degraus.
Ainda insatisfeito, o indivíduo tentou invadir o edifício, e não tendo sucesso, partiu para agressão verbal me xingando de “macaco”, “negro preguiçoso” e Valdinéa passou a ser a “Negra Vadia”. Prometendo vingança nos seguintes termos “vou te pegar negão e te fazer voltar pra tua terra, macaco”. Algum tempo depois deste triste episódio, nos dirigimos a 1ª delegacia dos Barris, situada na Rua Politeama de Baixo, para registrar ocorrência sobre o sucedido, cuja audiência está marcada para o dia 13 de Fevereiro de 2012. Tentamos ainda acionar outros serviços como a Delegacia Especial de Atendimento À Mulher – no Engenho Velho de Brotas - mas tomamos conhecimento que a Lei Maria da Penha não contempla esse tipo de agressão, apenas as de fórum doméstico.
Desta cruel experiência, fica ainda mais nítido que apesar do Brasil albergar o segundo maior contingente de população negra do mundo fora de África, de possiur mais de 22,5 milhões de jovens de ascendência africana em um total de 47,3% (FNUAP[1], 2011) e, no caso especifico de Salvador, o fato de ser eleita em 2011, a capital Afro-descendente da Ibero-América. [2] Percebo que a população negra é quase que invisível, estando entre os grupos populacionais que enfrentam as maiores desvantagens sociais: exclusão sócio-econômica e discriminação. Essa parcela da população também  tem os piores índices de saúde, educação e emprego, apesar das transformações ocorridas em direção a uma maior democratização social (INSPIR[3], 1999). Devemos levar em consideração que, sendo Salvador uma cidade cuja maioria dos seus habitantes é negra, essa mesma população é esmagada pelo racismo e pela sútil negação dos referenciais civilizatórias de matriz africana. Muito embora exista um enganador discurso de igualdade racial por conta da mediatização e mercantilização das culturas negras. Por outro lado, fica também em evidência um profundo desconhecimento da História de África e das populações Afro-brasileiras, ao ponto se de acreditar que negros são cidadãos de terceira-classe. Por isso algumas políticas públicas voltadas para as populações negras parecem incomodar tanto determinados grupos sociais. Isso explica o xingamento: “Você é um negro preguiçoso”, certamente por não estar na portaria de um prédio ou carregando peso nas costas para garantir o sustento, por isso negro com formação universitária é sinônimo de preguiça na visão de alguns. E ainda, o fato de as Nações Unidas ter decretado 2011 como o Ano Internacional dos Afrodescendentes, que serventia teve tal iniciativa?
Diante dessas evidências, questiono o falacioso discurso da ausência de racismo e atitudes de discriminação contra negros na sociedade soteropolitana, assim como a inexistência de práticas sociais respaldadas em antigas relações sociais desiguais que remontam ao período colonial. 
Salvador, 29/01/12      ____
Orlando Santos
Sociólogo
Mestre em Estudos Étnicos e Africanos
Estudante de Convênio Brasil-Angola
(Programa Estudante Convênio de Pós-Graduação - PEC-PG)
Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA
   
[1] Fundo das Nações Unidas Para a População.
[2] Conclusão saída da declaração final do Encontro Ibero-Americano do Ano Internacional dos Afro-descendentes (Afro XXI), realizado de 16 a 19  de Novembro 2011 em Salvador.
[3] Instituto  Sindical  Interamericano  Pela  Igualdade Racial.