quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Samba, Cabaré e Polícia na Feira de outrora

Denominada princesa do sertão baiano, Feira de Santana já gozava, nas décadas de 1930 e 1940, de importante prestígio, já tendo sido, inclusive, objeto das mágicas lentes de Pierre Verger, artista francês radicado na Bahia.
Sua história tem sido ao longo dos anos associada a uma cidade que tem origem em um importante comércio de gado e sua principal identidade social constituída em torno da “cidade comercial”. Entretanto, pode-se explorar outros importantes aspectos da história de Feira de Santana, a exemplo das experiências culturais negro-africanas ali constituídas, este é o caso dos sambas que tinham como cenário as contagiosas noites dos cabarés feirenses.
Este breve ensaio de reflexão, que ora apresento aos leitores, trata das histórias daqueles indivíduos, grupos e culturas que não conheceram a pena que pintou os compêndios sobre a Bahia de outrora.
Em suas raízes mais remotas, o samba era ritmo, dança e folguedo coletivos. Caracterizado pelas palmas, batuques e entoações poéticas. As novas características assumidas pelos sambas, como sua veiculação nos meios radiofônicos e a constituição de um mercado compositorial, principalmente, a partir de meados do século XX, já ocupa lugar entre os estudos da sociologia, história, antropologia e etnomusicologia.
Essa produção é evidente, sobretudo no quantitativo de pesquisas acerca do samba no Rio de Janeiro e São Paulo. Na Bahia, as mudanças ocorridas no significado social e cultural do samba tiveram que aguardar um pouco mais, ocupando esta forma de expressão lúdico-percurssivo-corporal, até meados do século XX, ainda o lugar dos batuques que precisavam ser reprimidos pelas autoridades policiais, por serem entendidos como práticas agenciadoras de contravenção penal, a exemplo dos conflitos que ocorriam nas noites dos cabarés. Esta realidade é denunciada pelas fontes históricas que revelam, por exemplo, as batidas policiais aos cabarés em Feira de Santana, em tempos não tão remotos assim.
Nos semanários jornalísticos feirenses que circulavam na sede e nas adjacências da cidade, pelo menos até a década de 1960, constata-se uma quantidade considerável de notícias que informavam sobre as práticas de samba, às vezes identificadas como “batuques” ou “batucadas”.
Muitas das notícias publicadas nesses periódicos, a exemplo do jornal Folha do Norte, informavam sobre os sambas e batucadas que ocorriam nos espaços das festas populares, como na lavagem da festa da padroeira Senhora Santana, ou nos cordões carnavalescos que abrilhantavam a festa de Momo na Princesa do Sertão. Entretanto, não escapava aos noticiários o alerta às autoridades policiais para os conflitos estimulados pelos ajuntamentos de trabalhadores pobres moradores dos subúrbios da Feira.
Em 1948, por exemplo, o leitor poderia ler no Folha do Norte, que “certos subúrbios da Feira, há muito se vem tornando perigosíssimos antros de criminosos e desordeiros”. Informava ainda este periódico que em um desses sambas em um conhecido “Cabaret de Nascimento”, situado no Calumbí, um indivíduo foi ferido a golpes de facão.
Nesta mesma notícia, o jornal questiona quem concede as “licenças para o funcionamento dessas gafieiras que infestam locais outrora pacatos como Baraúnas, e que hoje não podem ser habitados por gente descentes”. Era o bastante para estimular as batidas policiais aos cabarés da cidade.
Por razões como esta, a mando dos delegados, muitos sambas que ocorriam, inclusive, em recintos particulares, como era o caso de muitos cabarés, eram abortados pela polícia. Foi este o caso que envolveu o boêmio conhecido por “Pernambucano”, em 1942, em um cabaré denominado Café Dia e Noite.
Passemos, então a narrar este interessante evento, uma história vista, literalmente de baixo, dos becos escuros de um conhecido cabaré situado à Rua Sales Barbosa.
A Sales Barbosa da madrugada de primeiro de outubro, não era a mesma do agitado cotidiano diurno das vendas de bugigangas e guloseimas da cidade comercial de Feira de Santana, no ano de 1942. Como já era de se esperar os sonoros percussivos dos pandeiros e seus pares instrumentais acompanhado de uma boa melodia, doses de cachaça e requebros de corpos suados chamou a atenção da patrulha policial.
A mando do delegado o samba do Café Dia e Noite, terminou mais cedo. Após a retirada da polícia os boêmios se ajuntaram em uma esquina nas proximidades daquele cabaré. Às três e meia da manhã, solicitou-se novamente a presença da autoridade policial, desta vez, para autuar aquele que tocava e cantava no mesmo samba que havia sido impedido em nome da ordem.
“Pernambucano” foi acusado de espancar violentamente a alguém naquela localidade. Segundo a Denuncia do Promotor Público, ele “esmurrou, derrubou o pobre rapaz para bater várias vezes a cabeça da vítima na calçada”. O acusado foi citado no art. 129 do Código Penal Brasileiro, por crime de lesões corporais, o qual evidenciou a prática e o controle policial do samba naquele cabaré.
Na grande narrativa da história feirense, como a que fez o norte-americano Rollie Poppino, em seu livro intitulado Feira de Santana (Editora Itapoã, 1968), não caberia destacar protagonismos como o de “Pernambucano” e um sangrento conflito que teve origem em um famigerado cabaré, em meio à suor, cachaça e batuque.
Este protagonismo, que revela as experiências de pessoas simples da sociedade e suas culturas marginais, pertence à história vista de baixo. Acreditando neste estilo narrativo, é possível se recuperar as experiências de muitos “Pernambucanos”, muitos sambas e batuques que protagonizaram histórias da Feira de outrora.

Para saber mais:
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. Rio de Janeiro: Codecri, 1979.
MATOS, Cláudia. Acertei no milhar: samba e malandragem no tempo de Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

* Por Bel Pires
** Ilustrações de Gabriel Ferreira

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O JAM DO BECO DA ENERGIA – UMA COMUNIDADE NEGRA QUE GANHOU CORES E RITMOS


Nas últimas semanas, Feira de Santana (BA) tem ouvido falar bastante sobre um movimento de intervenção artística no chamado Beco da Energia, especialmente através da mídia alternativa. Trata-se de uma viela que liga a Rua Marechal Deodoro ao Beco do Mocó, no agitadíssimo centro da cidade. O Beco da Energia, sempre foi  um espaço marginalizado da cidade pelo fato de funcionar ali algumas casas de atividade de profissionais do sexo, mas também ocorre durante o dia um grande comércio ambulante de miudezas, além de bares e residências domésticas. Resumindo, é o Beco da Energia uma comunidade habitada e frequentada por uma população majoritariamente negra e pobre da Cidade de Feira de Santana. A marginalização desse espaço não foi algo que se iniciou recentemente. Identifiquei nos arquivos policiais um processo criminal que tratava de uma briga num agitado samba na década de 1940. Ao abordarem o caso crime, as autoridades policiais falavam horrores da vida social nesta localidade, como sendo ambiente frequentado por indivíduos de alta periculosidade, isto sempre ocorreu com outras comunidades negras. Desta forma, toda referência que a cidade fazia ao Beco da Energia, era de cunho pejorativo e de degradação social. Mesmo as autoridades políticas nunca se importaram com os cidadãos e cidadãs feirenses que vivem nessa localidade. Nos últimos dias, por razões despretensiosas, um conjunto de artistas da cidade, estimulado pelo músico, tatuador e grafiteiro Márcio Punk, começou a deixar as suas marcas coloridas nas estragadas e maltratadas paredes do Beco, dando formas e cores há um dos espaços mais marginalizados da cidade. O curioso de tudo isso é que as pessoas que ali habitam, ao contrário das autoridades políticas locais, passaram a reconhecer a importância dessa intervenção. No último domingo, esta brincadeira que foi ganhando proporção não esperada, reuniu um conjunto enorme de pessoas que se identificam com as atividades culturais da cidade para cantar, dançar e gritar em muitas cores no inesquecível evento intitulado “Jam no Beco”.  Cheguei logo cedo com o meu mano Rios Vibration (músico e capoeirista) e aos poucos fui identificando os grafiteiros pendurados nas paredes, guitarras, baterias e equipamentos percussivos sendo testados e de forma bastante espontânea cada um tomava o microfone e deixava o seu recado na linguagem que o mesmo dominava: declamação, reggae, soul, blues, samba, rock, etc. O beco foi tomado por um processo de reterritorialidade, sendo que desta vez não foi pela força da relação de poder que sempre marginalizou seus moradores. Desta vez os moradores foram os “donos e as donas do pedaço” que permitiram todo este rio de cores e ritmos que sacudiram o “Beco” com muita “Energia”!
E que continue a intervenção artística no Beco da Energia, uma comunidade negra!
*Por Bel Pires