segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O JAM DO BECO DA ENERGIA – UMA COMUNIDADE NEGRA QUE GANHOU CORES E RITMOS


Nas últimas semanas, Feira de Santana (BA) tem ouvido falar bastante sobre um movimento de intervenção artística no chamado Beco da Energia, especialmente através da mídia alternativa. Trata-se de uma viela que liga a Rua Marechal Deodoro ao Beco do Mocó, no agitadíssimo centro da cidade. O Beco da Energia, sempre foi  um espaço marginalizado da cidade pelo fato de funcionar ali algumas casas de atividade de profissionais do sexo, mas também ocorre durante o dia um grande comércio ambulante de miudezas, além de bares e residências domésticas. Resumindo, é o Beco da Energia uma comunidade habitada e frequentada por uma população majoritariamente negra e pobre da Cidade de Feira de Santana. A marginalização desse espaço não foi algo que se iniciou recentemente. Identifiquei nos arquivos policiais um processo criminal que tratava de uma briga num agitado samba na década de 1940. Ao abordarem o caso crime, as autoridades policiais falavam horrores da vida social nesta localidade, como sendo ambiente frequentado por indivíduos de alta periculosidade, isto sempre ocorreu com outras comunidades negras. Desta forma, toda referência que a cidade fazia ao Beco da Energia, era de cunho pejorativo e de degradação social. Mesmo as autoridades políticas nunca se importaram com os cidadãos e cidadãs feirenses que vivem nessa localidade. Nos últimos dias, por razões despretensiosas, um conjunto de artistas da cidade, estimulado pelo músico, tatuador e grafiteiro Márcio Punk, começou a deixar as suas marcas coloridas nas estragadas e maltratadas paredes do Beco, dando formas e cores há um dos espaços mais marginalizados da cidade. O curioso de tudo isso é que as pessoas que ali habitam, ao contrário das autoridades políticas locais, passaram a reconhecer a importância dessa intervenção. No último domingo, esta brincadeira que foi ganhando proporção não esperada, reuniu um conjunto enorme de pessoas que se identificam com as atividades culturais da cidade para cantar, dançar e gritar em muitas cores no inesquecível evento intitulado “Jam no Beco”.  Cheguei logo cedo com o meu mano Rios Vibration (músico e capoeirista) e aos poucos fui identificando os grafiteiros pendurados nas paredes, guitarras, baterias e equipamentos percussivos sendo testados e de forma bastante espontânea cada um tomava o microfone e deixava o seu recado na linguagem que o mesmo dominava: declamação, reggae, soul, blues, samba, rock, etc. O beco foi tomado por um processo de reterritorialidade, sendo que desta vez não foi pela força da relação de poder que sempre marginalizou seus moradores. Desta vez os moradores foram os “donos e as donas do pedaço” que permitiram todo este rio de cores e ritmos que sacudiram o “Beco” com muita “Energia”!
E que continue a intervenção artística no Beco da Energia, uma comunidade negra!
*Por Bel Pires

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